quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Na USP Leste, “problemas” fundamentam ensino no ciclo básico

Luiza Caires, USP Online

Carteiras alinhadas, alunos em silêncio com seus livros, e o professor na frente da sala, transmitindo o conhecimento. Esta imagem de uma aula universitária típica começa a dar lugar a um quadro bem diferente. Pelo menos na disciplina Resolução de Problemas, que faz parte do Ciclo Básico dos alunos de todos os cursos da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, no campus USP Leste.

A Resolução de Problemas é inspirada em uma metodologia de ensino conhecida como Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP). Na verdade, mais que um método, a ABP consiste em uma concepção diferenciada da relação entre ensino e aprendizagem, como explica o professor Ulisses Araújo, vice-coordenador do Ciclo Básico da EACH: “a ABP está vinculada a uma concepção que a gente chama de 'metodologias ativas de aprendizagem', que são aquelas em que o estudante tem um papel ativo na construção do conhecimento”.

Trata-se então de uma mudança de paradigma na relação com o conhecimento na universidade e na educação de uma maneira geral, porque até então a aprendizagem estava centrada no ensino. Ou seja: cabiam ao o professor e ao livro ensinar, e ao aluno apenas assimilar.

“Com as transformações por que o mundo contemporâneo vem passando, o papel de detentor do conhecimento que o professor tinha começa a ser questionado, já que ninguém hoje consegue dar conta de ter acesso a todas as informações disponíveis. Ele passa a ter que assumir um outro papel, que é mais parecido com o de um orientador. E o aluno precisa aprender a buscar a informação e transformá-la em conhecimento”, esclarece o professor.

A ABP pode ser aplicada em todos os níveis da educação, mas na universidade este ponto de vista se torna ainda mais importante, porque atualmente o mercado de trabalho exige profissionais com autonomia, criatividade, que consigam trabalhar a informação e que saibam atuar em equipe.

Problemas e soluções
Na prática, o que acontece é que os alunos do primeiro ano (Ciclo Básico) da EACH são separados em grupos de seis e têm que desenvolver um projeto a partir das temáticas que a comissão de cursos elabora a cada semestre. Cada grupo fica com um tema, sempre ligado à cidadania, como, por exemplo, transporte, vida urbana, desenvolvimento humano, e ambiente e economia.

A partir desta temática, o grupo deve elaborar um problema de pesquisa – que não é dado de antemão. “Os alunos têm que aprender a problematizar a realidade, e é por isso que a gente fala de metodologia ativa”, explica Araújo. “Apenas incentivamos que seja desenvolvido um projeto relacionado às comunidades do entorno da EACH”, completa o professor, citando os bairros próximos ao campus USP Leste, na região mais carente da capital paulista.

Os estudantes têm então um mês para elaborar o problema e um plano de investigação, e outros três para apresentar propostas de solução para ele. No primeiro semestre, os grupos são formados por alunos do mesmo curso e, no segundo, por alunos de cursos diferentes – mas sempre sendo selecionados aleatoriamente, como argumenta o professor: “nossa intenção é prepará-los para o trabalho em equipe na vida profissional real, pois, quando chegarem a esta fase, também não poderão escolher com quem irão ou não trabalhar”.

Origens
Filosoficamente, a matriz da metodologia está relacionada a autores como o norte-americano John Dewey, considerado fundador do pragmatismo, e o epistemólogo suíço Jean Piaget, defensor do construtivismo. Também é estreitamente ligada à educação crítica, que tem origem no trabalho do educador brasileiro Paulo Freire.

A primeira universidade a implementar a ABP foi a de McMaster, no Canadá, durante a década de 1960. Na Europa, no inicio da década de 1970, algumas universidades já foram criadas fundamentadas na ABP, como é caso de Linköping, na Suécia, Maastricht, na Holanda e Aalborg, na Dinamarca.

No Brasil, a área em que a aplicação da metodologia está mais desenvolvida é a de saúde. Praticamente todos os cursos de medicina criados no país nos últimos dez anos a adotaram na sua organização curricular.

Na USP há iniciativas isoladas dentro de algumas unidades, como a Faculdade de Economia e Administração (FEA), a Faculdade de Educação (FE), a área de saúde do campus de Ribeirão Preto, e em algumas disciplinas da Faculdade de Medicina (FMUSP). Mas a EACH é a única unidade onde a ABP foi adotada já na criação da escola, há quatros anos atrás, desde o desenvolvimento do projeto acadêmico pedagógico.

Neste caso, a ABP está centrada no primeiro ano, e fica a cargo dos cursos e dos professores a opção de implementá-la ou não nos anos seguintes. Seis dos dez cursos já fizeram isso. “Nós trabalhamos com uma metodologia mista, pois há também a forma tradicional de ensino, com disciplinas e aulas expositivas. Mas ao longo do tempo, com as pessoas conhecendo a proposta, tivemos uma série de professores que começaram a introduzi-la nas suas próprias disciplinas”, conta o professor.

Formação
A EACH procura realizar ações de formação dos professores-tutores. Neste semestre, por exemplo, está sendo realizada, em parceria com a FE, uma série de seminários chamada Diálogos sobre Metodologias Ativas de Aprendizagem e ABP. O primeiro acontece dia 20 de agosto na EACH, e o segundo dia 5 de setembro, na FE, sendo abertos a todos os docentes da USP.

Mas, coerentemente com a própria metodologia, a idéia principal é que os professores aprendam fazendo, sem dissociar teoria e prática. Então estas ações são muito mais de apoio do que cursos nos sentido tradicional.

Retorno
Desde o início da USP Leste, são feitas avaliações bimestrais com os alunos sobre as disciplinas do currículo. O fato de se trabalhar em grupos mistos, com alunos de diferentes cursos, é um dos aspectos mais bem avaliados pelos estudantes do ciclo básico.

Alguns alunos, até por serem oriundos do ensino médio, onde há um formato totalmente diferente de aprendizagem, criticam a metodologia. E nem todos os professores se adaptam ao modelo, sendo selecionados para trabalhar com a ABP apenas aqueles com maior disponibilidade para aceitar este tipo de didática.

Mesmo assim, a Resolução de Problemas é a disciplina mais bem avaliada pelos estudantes. “Apesar de todo estranhamento e da dificuldade que os alunos possam sentir no início – muitas vezes só pelo fator novidade –, eles acabam gostando bastante, e reconhecendo que aprendem de forma diferente e mais aprofundada”, conta o professor.

“Como hoje em dia nas empresas e no serviço público trabalha-se sempre em torno de projetos e com equipes multidisciplinares, esperamos que no futuro nossos alunos valorizem ainda mais o tipo de formação que tiveram”, finaliza.

Reconhecimento internacional
A USP recebeu a nomeação para sediar o Congresso Internacional de ABP em 2010, após concorrer com universidades de Estados Unidos, Canadá e Chile. E, recentemente, o professor Ulisses organizou, em parceria com a professora Genoveva Sastre, da Universidade de Barcelona, o livro El Aprendizaje Basado em Problemas. Lançada em junho deste ano na Espanha, a obra mostra a experiência das seis principais universidades do mundo que adotam a concepção da ABP na sua estrutura curricular – e traz um capítulo só sobre a USP Leste.

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