terça-feira, 20 de maio de 2008

Médicos demonstram desconhecimento de síndrome que atinge 10% dos idosos

Luiza Caires, especial para a Agência USP de Notícias

O transtorno neurológico chamado Síndrome das Pernas Inquietas (SPI) atinge 5% da população mundial em geral, número que aumenta para 10% quando somente pessoas idosas são incluídas nas pesquisas. Apesar destas altas taxas de incidência, a patologia é considerada a de ocorrência mais freqüente de que as pessoas nunca ouviram falar.

Pensando em diminuir este desconhecimento, que atinge mesmo a classe médica, um grupo de pesquisadores de instituições brasileiras, incluindo a Faculdade de Medicina (FM) da USP, participou de uma reunião para desenvolver um documento baseado na experiência clínica e pesquisa, unificando e divulgando procedimentos de diagnóstico e tratamento da doença. As conclusões foram publicadas em um artigo na revista Arquivos de Neuropsiquiatria, em abril de 2007, sob o título Síndrome das Pernas Inquietas: Diagnóstico e tratamento – opinião de especialistas brasileiros.

O médico Flávio Aloé, do Centro Interdepartamental para os Estudos do Sono do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina (FM) da USP e um dos autores, explica que o objetivo do estudo é ser uma referência tanto para médicos na clínica diária, como para pesquisadores e promotores de políticas de saúde pública, facilitando o diagnóstico e indicando os medicamentos mais eficientes para pacientes com a SPI. Segundo o médico, dados do Canadá e Estados Unidos, países desenvolvidos e teoricamente com sistemas de saúde eficientes, indicam que apenas de 15% a 23% dos portadores do transtorno são corretamente diagnosticados. Apesar de não haverem pesquisas semelhantes no Brasil, imagina-se que esta situação aqui seja ainda pior.

“Uma ocorrência muito grave que pretendemos minimizar é o fato de os pacientes que apresentam os sintomas da doença e se queixam aos seus médicos serem erroneamente identificados como portadores de transtornos psicossomáticos, ansiedade ou depressão. O uso de antidepressivos causa e agrava os sintomas da SPI, ocasionando grande sofrimento a estas pessoas”, adverte o pesquisador.

Para Aloé, os esforços da indústria farmacêutica em ampliar o conhecimento da doença têm ajudado na difusão da temática entre a classe médica mas ainda são necessárias outras ações neste sentido. “Temos relatos de pacientes que chegam ao consultório dizendo apresentar os sintomas da SPI, após ter pesquisado o assunto na Internet, por exemplo, e que são solicitados pelo médico a ‘explicar’ do que se trata esta doença da qual ele nunca ouviu falar”, conta.

A doença
A SPI é uma condição médica crônica caracterizada por desconforto nos membros, causando várias morbidades médicas e mentais e alterações do sono. O principal sintoma apresentado é uma compulsão irresistível para movimentar os membros, causada por uma sensação de desconforto, sendo que esta sensação começa ou piora em repouso e no horário noturno (antes de dormir ou durante a noite).

O desconforto apresenta-se como queimação, dor, pontadas, cãibras e parestesias, isto é, sensações na pele como calor, formigamento, pressão e dormência, e que são vivenciadas sem estimulação direta sobre o local. Costuma ser localizado nas panturrilhas, e é aliviado temporariamente por atividade física ou banhos quentes.

A SPI se caracteriza pela degeneração de certos sistemas neurais, e são considerados fatores de risco para o seu aparecimento as seguintes situações: ser do sexo feminino; ter mais que 50 anos; estar grávida; ser doador freqüente de sangue; apresentar anemia, insuficiência renal crônica, doença de Parkinson, diabetes mellitus, fibromialgia, artrite reumatóide, mielopatias, neuropatia periférica; e usar fármacos como antidepressivos. Mas é importante ressaltar que nem todas as pessoas que apresentem tais condições desenvolverão necessariamente a doença, já que a predisposição genética é sua causa determinante.

O tratamento consiste na administração de remédios (principalmente drogas conhecidas como agentes dopaminérgicos e anticonvulsivantes), reposição de ferro, e tomada de outras medidas, como suspensão de fármacos que agravam o problema – a exemplo dos antidepressivos –, realizar a chamada “higiene do sono”, evitando o consumo de cigarros, produtos ricos em cafeína e bebidas alcoólicas e também a prática de exercícios físicos intensos antes de dormir, bem como tratar outros transtornos do sono que o paciente apresentar.

Os membros do Grupo Brasileiro de Estudos em Síndrome das Pernas Inquietas (GBE-SPI) que produziram as conclusões descritas no artigo são: Flávio Aloé, Rosana Cardoso Alves, Luiz Augusto Franco Andrade Márcia Assis, Andrea Bacelar, Márcio Bezerra, Henrique Ballalai Ferraz, Ronaldo Guimarães Fonseca, Wagner Horta, Mônica Santoro Haddad, Rosa Hasan, James Pitágoras de Mattos, Gilmar Prado, Nonato Rodrigues, Ademir Batista Silva, Delson José da Silva, Hélio Afonso Ghizoni Teive, Francisco Cardoso, Geraldo Rizzo (estes dois últimos foram os responsáveis pela redação final).

Mais informações: Dr. Flávio Aloé, e-mail: piero.ops@terra.com.br

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Obra de Clarice Lispector traz novo olhar sobre o Brasil das décadas de 1950 e 60

Luiza Caires, especial para a Agência USP de Notícias

As personagens e histórias dos contos de Laços de Família, de Clarice Lispector, dizem muito sobre as contradições da sociedade brasileira da época em que o livro foi escrito. A dissertação Linguagem e melancolia em "Laços de Família": histórias feitas de muitas histórias, defendida pelo pesquisador Moacyr Vergara de Godoy Moreira na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP em agosto de 2007, buscou justamente contribuir para o entendimento do período (décadas de 1950 e 1960) por meio de uma abordagem sociológica desta literatura.

“Parte da historiografia coloca o Brasil dos anos 1950 e 1960 como um país progressista. Quando olhamos para os conflitos expostos na obra de Clarice Lispector vemos que não é bem assim”, explica o pesquisador. Moreira recorreu ao texto literário para acessar um conteúdo que nem sempre outras disciplinas encontram e viu vir à tona um País permeado por elementos de patriarcalismo, opressão da mulher, racismo e preconceito social. Tais elementos se situam em termos contraditórios ao desenvolvimentismo econômico e à liberalização pelos quais o período é conhecido por muitos.

Como exemplo do conservadorismo, destaca um trecho do conto A imitação da rosa:

“Seu rosto tinha uma graça doméstica, os cabelos eram presos com grampos atrás das orelhas grandes e pálidas. Os olhos marrons, os cabelos marrons, a pele morena e suave, tudo dava a seu rosto já não muito moço um ar modesto de mulher. Por acaso alguém veria, naquela mínima ponta de surpresa que havia no fundo de seus olhos, alguém veria nesse mínimo ponto ofendido a falta dos filhos que ela nunca tivera?”.

Moreira explica que “há, aqui, uma crítica a um elemento da sociedade patriarcal, que é ver a mulher como meramente um ser reprodutor, responsável por dar herdeiros ao marido, além de cuidar dos afazeres do lar”.

E para exemplificar a crítica ao racismo, cita um trecho do conto A menor mulher do mundo:

"Entre mosquitos e árvores mornas de umidade, entre as folhas ricas do verde mais preguiçoso, Marcel Pretre defrontou-se com uma mulher de quarenta e cinco centímetros, madura, negra, calada. ‘Escura como um macaco’ (...) – A senhora já pensou, mamãe, de que tamanho será o nenezinho dela? - disse ardente a filha mais velha de treze anos. O pai mexeu-se atrás do sofá. – Deve ser o bebê preto menor do mundo - respondeu a mãe, derretendo-se de gosto. – Imagine só ela servindo a mesa aqui em casa! E de barriguinha grande!"

"Encontramos também personagens que passam por situações inusitadas, mas que voltam sempre à mesma situação de opressão – aspecto sobre o qual podemos fazer uma analogia com a história do Brasil, país que passa por sucessivos ‘traumas’ (exploração colonial, escravidão, ditadura Vargas e Regime Militar) – conceito de Renato Janine Ribeiro – mas não apresenta uma força de mudança suficiente para alterar as estruturas."

O enfoque escolhido por Moreira para estudar Clarice Lispector, por meio da sociologia da literatura, ainda não é tão comum quanto outras linhas usadas na reflexão sobre os textos da escritora. ”Nas décadas de 70 a 80 tivemos um predomínio da abordagem feminista, seguida do recurso à psicanálise nas décadas de 80 a 90. A partir dos anos 90, começamos a encontrar trabalhos que privilegiam a visão da literatura de Clarice como uma interface de crítica à sociedade da época”, explica.

Ele ressalta também a importância de a academia reconhecer os múltiplos valores da obra de Clarice Lispector, ainda vista com ressalvas por parte dos teóricos mais conservadores. “Alguns estudiosos com os quais conversei estranharam a minha opção pela Clarice Lispector para trabalhar com esta temática. Numa destas ocasiões, li um trecho de Laços de Família em voz alta e percebi que a pessoa ficou surpresa com o conteúdo – o que demonstra claramente que grande parte desta resistência à escritora provém de preconceito, de idéias não amparadas num conhecimento da obra dela, e também de machismo, com a crítica de que seus livros não passariam de ‘caderninhos de mulherzinha’ ”, conta o pesquisador.

Uma linguagem estranha
Além dos aspectos sociológicos, a dissertação buscou uma reflexão estética sobre a linguagem utilizada pela autora. Erroneamente considerada por muitos uma escritora ‘ilegível’ por adotar o fluxo de pensamento em seus textos, Clarice Lispector escreveu muitas obras ligadas a temas do cotidiano mais concreto, como é o caso do livro estudado.

Mesmo assim, o leitor se depara com frases que geram algum estranhamento. Mas o incômodo provocado é proposital, como explica o pesquisador: “Segundo o filósofo Theodor Adorno, toda vez que uma obra de arte rompe com a expectativa causa um estranhamento em quem a aprecia. Para ele, tal incômodo é a única forma possível de tirar as pessoas da reificação (perda do seu caráter humano, transformação em ‘coisa’), fazendo-as refletir e criticar sua própria maneira de viver”.

Mais informações: Moacyr Moreira, e-mail
moreiramoa@hotmail.com. Pesquisa orientada pelo professor Jaime Ginzburg.