terça-feira, 24 de junho de 2008

Estudo analisa vivência dos casais no tratamento do câncer feminino

Luiza Caires, especial para o Jornal da USP

Pensando em minimizar a lacuna de estudos que olhem a perspectiva do casal que vivencia o câncer de mama feminino, a psicóloga Cintia Bragheto Ferreira realizou, por meio da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP, uma pesquisa com casais atingidos pelo problema. O estudo buscou principalmente investigar os sentidos construídos para a doença entre casais que permaneceram unidos na vivência dessa enfermidade.

Foram feitas entrevistas separadamente com 14 pessoas de sete casais (oficialmente casados ou não) cujas mulheres eram atendidas pelo Núcleo de Ensino, Pesquisa e Assistência na Reabilitação de Mulheres Mastectomizadas (REMA) da EERP, e que permaneceram juntos durante a doença e passado um ano do tratamento. A média de idade dos entrevistados foi de 62 anos, sendo que os que estavam unidos há mais tempo tinham 43 anos de casados.“Não foram entrevistados casais em que a paciente tinha metástase (quando o câncer se espalha para outros órgãos), já que, neste caso, a conversa tenderia a ficar muito focada na volta da doença”, explica Cintia.

Apesar da superação, a trajetória relatada por estes casais reforçou a idéia da pesquisadora de que os serviços públicos de saúde não devem priorizar apenas a paciente, mas olhar também para os entes mais próximos, que passam por grande sofrimento.

A partir de entrevistas a psicóloga identificou três temáticas referentes aos sentidos do câncer e da conjugalidade: o câncer em si, que inclui a confirmação da enfermidade e a fase de tratamento, e a vida a dois na doença.

O momento de chegada da doença foi fortemente relacionado pelos casais ao sentido de sacrifício e ao desfecho de morte, ainda que atualmente os recursos terapêuticos para o tratamento do câncer sejam bastante eficazes quando o diagnóstico da doença é feito em seus estágios iniciais. Cintia conta que “culturalmente, o câncer ainda é associado à idéia de ‘castigo’, então os casais se revoltam por julgar não ‘merecer’ passar por aquela situação.” Percebeu-se também a presença da religião e a relação dos casais com a idéia de Deus.

Valores tradicionais
Na fase do tratamento, foi constatado que a ajuda dos maridos consistia principalmente em levar a esposa aos locais de tratamento. “Lidamos com casais mais velhos, influenciados por valores tradicionais, nos quais as tarefas domésticas são esperadas da figura feminina, então, em geral, estas ficavam a cargo de uma empregada. Da mesma maneira, cuidar dos doentes está tradicionalmente relacionado à mulher, e no grupo estudado tarefas como ajudar no banho e fazer curativos eram desempenhadas por uma parente”, relata a psicóloga.

Sobre a questão da diminuição das relações sexuais nas mulheres que passaram por mastectomia (cirurgia para retirada de parte ou totalidade da mama), Cintia ressalta que não é possível atribuir este fato somente ao câncer e à operação: “em se tratando de casais mais velhos também temos de levar em conta mudanças próprias à idade, como ressecamento vaginal na mulher e dificuldades de ereção para o homem”.

Em relação à idéia de casamento, foi perguntado a cada um dos parceiros o que era para ele ser marido, e o que era para ela ser esposa, e percebeu-se que a questão do câncer influenciou nos conceitos de ambos. Alguns maridos, por exemplo, citavam que um de seus papéis era manter a fidelidade mesmo na doença – remetendo ao juramento que é realizado durante a cerimônia religiosa, e à crença de que os parceiros devem ficar juntos “até que a morte os separe”. O “ser esposa” para as mulheres refletiu a crença na completude recíproca do casal e no papel da mulher ligado ao cuidado da casa e de seus membros.

Os casais relataram maior proximidade após o evento da doença, mas também disseram que os sentimentos mais íntimos dos dois em relação ao câncer não foram divididos – e essa ocultação parece ter sido uma medida para não afetar os laços conjugais, como explica a pesquisadora: “Não revelar o que estavam sentindo em relação ao que estava acontecendo, ser tolerante, paciente e ‘fazer vistas grossas’ foram relatados tanto pelos homens como pelas mulheres”.

Superação
“Notamos que os casais entrevistados conseguiram superar a doença sem ajuda profissional, baseados em valores típicos da moral que rege os relacionamentos no século XX. O que não quer dizer que isso possa ser generalizado, já que cada um lida à sua maneira com as situações. Se tivéssemos entrevistado casais mais jovens, por exemplo, pode ser que dissessem que o correto é que o casal viva tudo em conjunto, e relate ao outro todos seus sentimentos, como acontece com o que chamamos de ‘casais grávidos’, em que o marido acompanha a gestante em todas as etapas da gravidez, e às vezes até engorda com ela. E nada impede que este modelo pudesse ser eficaz no enfrentamento de uma doença.”

Para efetivar o estudo, analisando as saídas construídas pelos casais nesta situação, a psicóloga utilizou bibliografia e conceitos do chamado “construcionismo social”. “O construcionismo social postula que construímos sentidos para nossas vidas articulados com as relações sociais que estabelecemos ao longo de nossa existência, sempre contextualizados com o momento histórico e cultural vivido”, conclui.

A pesquisa foi realizada com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), e resultou na tese de doutorado Sentidos construídos para o relacionamento conjugal na vivência do câncer de mama feminino, defendida em novembro de 2007 na EERP.

Mais informações: Cintia Bragheto Ferreira, e-mail cintiabragheto@hotmail.com. Pesquisa orientada pela professora Ana Maria de Almeida

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Sistema reduz 30% dos ruídos de automóveis

Luiza Caires, Jornal da USP

Uma pesquisa feita pela Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP em parceria com a Universidade Católica de Leuven (KUL) da Bélgica resultou em um sistema que reduz em até 30% os ruídos automotivos. Pensando em propor ferramentas de projeto e desenvolvimento de sistemas de controle de ruído para automóveis, Leopoldo Pisanelli Rodrigues de Oliveira, pesquisador do Laboratório de Dinâmica (LabDin) da EESC, realizou experimentos com dispositivos de controle em um modelo de veículo não funcional. O modelo foi excitado com som de um motor em diversas condições de operação, e as avaliações indicaram que os dispositivos usados diminuíram em quase um terço os sons percebidos pelos ocupantes.

O sistema de controle utilizado pode ser adaptado pela indústria, ainda que requeira um esforço de diversas áreas para torná-lo uma aplicação comercial, principalmente no que se refere ao tamanho dos atuadores e amplificadores e ao seu consumo de energia. “Contudo, se os resultados até agora promissores se confirmarem em aplicações mais complexas, e com a constante demanda por redução de ruído, talvez este se torne no futuro um item comum em veículos”, prevê o engenheiro.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) identifica um considerável número de efeitos colaterais à saúde causados pela exposição ao ruído, que podem ser de ordem psíquica (tensão psico-fisiológica, irritabilidade, distúrbio do sono, perda da produtividade ou dificuldade no aprendizado em crianças) ou física (insônia, hipertensão arterial e deficiência auditiva).

O experimento
O ruído é transmitido do compartimento do motor para dentro do veículo não-funcional (mock-up) por meio do painel metálico na carroceria do automóvel (parede-corta-fogo). Então, um sistema de controle ativo é instalado na parede-corta-fogo para reduzir a transmissão de ruído para o interior.

A principal diferença entre controle ativo e passivo é que no controle ativo se subentende o uso de atuadores capazes de introduzir energia no sistema, como é o caso dos alto-falantes. Enquanto isso, no controle passivo se utilizam elementos como espumas, por exemplo.

“A necessidade do uso de controle ativo surge pela impossibilidade de se tratar a redução de ruído em baixas freqüências com absorvedores passivos e da flexibilidade conferida pelo uso de estratégias de controle ativo”, explica o cientista. “Mas há que se ressaltar que, quando se fala em qualidade sonora, nem sempre a redução do ruído é o objetivo final; às vezes é preciso combinar redução de ruído em algumas situações com o aumento em outras”, acrescenta.

Os testes descritos foram feitos na Bélgica, nos laboratórios de uma empresa que desenvolve software e equipamentos de simulação e medidas de ruído e vibração. Os resultados da pesquisa foram expostos na tese de doutorado do engenheiro, defendida em 2007 na EESC, Controle ativo de ruído em veículos e seu impacto na qualidade sonora.

“Realizei a pesquisa num programa bilateral com a KUL. Lá encontrei não somente receptividade, mas a necessidade de alguém que pudesse trabalhar nesta linha de pesquisa, no contexto de um projeto europeu do qual a universidade e fabricantes como Renault, Volkswagen e Airbus fazem parte”, conta Pisanelli.

Gastos em saúde
Os veículos expõem seus ocupantes a longos períodos de exposição a ruído e vibração, ocasionando os problemas de saúde relatados. Além disso, em pesquisas de opinião com a população em geral, a poluição sonora é apontada como problema com a mesma freqüência que o aquecimento global.

A comunidade européia, por exemplo, vem aumentando o foco de suas legislações na redução de ruído, como relata o pesquisador: “Um relatório indica que 80 milhões de pessoas naqueles países vivem em regiões onde o nível de ruído é considerado inaceitável e 170 milhões onde o ruído pode causar sério desconforto. E as estimativas apontam para um gasto anual com problemas de saúde relacionados ao ruído nestes locais na margem dos € 12 bilhões/ano.”

Mais informações: e-mail
leopoldo.deoliveira@student.kuleuven.be, com Leopoldo Pisanelli Rodrigues de Oliveira. Pesquisa orientada pelo professor Paulo Sergio Varoto

Dekasseguis que migram para o Japão encontram dificuldades de inserção social

Luiza Caires, especial para a Agência USP de Notícias

Um século depois do início do movimento de imigração japonesa para o Brasil o fluxo se inverteu e, há aproximadamente duas décadas, o Japão vem sendo destino de filhos (nisseis) e netos (sanseis) desses imigrantes. Este movimento, inclusive de membros de sua própria família, chamou a atenção do geógrafo Ricardo Hirata Ferreira, que decidiu estudá-lo, percebendo que apesar das variações de cada caso, a condição do migrante dekassegui sempre vem acompanhada de conflitos e o processo de inserção destes descendentes na sociedade japonesa não se dá facilmente.

Em 2005, Ferreira passou 39 dias no Japão entrevistando dekasseguis que deixaram o Brasil para trabalhar naquele país, e identificou quatro grupos em diferentes situações. As entrevistas compõem o estudo realizado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

O primeiro caso é dos que vão para o Japão para trabalhar e poupar, com uma meta bem definida em mente, como adquirir a casa própria no Brasil, por exemplo. Planejam permanecer no país de dois a três anos, período em que levam uma vida mais regrada e dificilmente saem da rotina “da casa para o trabalho e do trabalho para a casa”. Os contratos de trabalho não são feitos diretamente com as fábricas japonesas onde prestam serviço, mas com empreiteiras que terceirizam esta mão-de-obra. São assim praticamente excluídos de benefícios como assistência médica e previdência.

Ferreira explica que o Japão é um país aversivo ao imigrante de maneira geral, principalmente ao de país periférico. Apesar de o mercado de trabalho absorver estes trabalhadores em atividades braçais, o Estado e a sociedade não os vêem com bons olhos.

O segundo grupo é formado por descendentes que não têm a mesma preocupação em poupar, e já estão no Japão de 5 a 8 anos. A idéia de voltar ao Brasil é encarada apenas como projeto para um futuro indeterminado. Mas costumam vir com mais freqüência para passear e visitar parentes.

No grupo seguinte estão aqueles migrantes que dão claras indicações de que não voltarão ao Brasil. Grande parte destes já tem visto permanente, família com filhos em escolas para japoneses e até contratos de trabalho direto com as empresas japonesas.

Sem reconhecimento
Por último, há uma outra população que começa a ser representativa no Japão. São os filhos de migrantes que, apesar de nascidos lá, não são reconhecidos como japoneses pelo governo. “Algumas destas crianças e adolescentes estudam em escolas específicas para brasileiros, mas os que estudam em escolas japonesas passam por dificuldades para se adaptar em função da língua e dos padrões rigorosos daquele sistema educacional”, conta o pesquisador.

Além disso, conforme explica o geógrafo, “esta geração sofre de uma preocupante crise de identidade, relatando não se sentirem brasileiros, pois quando estão no Brasil são vistos como japoneses –, e nem japoneses, pois lá são tratados como ‘gaijins’, termo destinado aos estrangeiros e que pode ter uma conotação negativa, sendo ‘inimigo’ um de seus significados”. A rejeição ao diferente, mais do que em outros lugares, faz parte da cultura japonesa, o que torna a situação destas pessoas ainda mais difícil.

Apesar das dificuldades vividas pelos migrantes, a maioria deles acredita que a mudança foi benéfica, já que naquele país passaram a ter acesso a uma série de itens de consumo que não podiam adquirir no Brasil, como casa, automóvel e viagens. Assim, nas palavras de Ferreira, “o consumo é uma variável chave para entender a migração para um país capitalista de ponta como o Japão, em que apesar das dificuldades enfrentadas, a vida confortável e aparentemente segura do ponto de vista dos bens materiais se apresenta compensadora”.

Mais informações: Ricardo Hirata Ferreira, e-mail ricardogeo@yahoo.com.br. Pesquisa orientada pela professora Rosa Ester Rossini e financiada pela FAPESP